segunda-feira, 10 de maio de 2010

Saudosismo - Parte 2

Em 1998, tinha eu 14 anos, foi criado o NIAC - Nucleo de Investigacao em Astronomia da Cidadela. Era um grupo criado por dois professores (Rui Farinha e Leonor Cabral) que lecionavam na Escola Secundaria da Cidadela em Cascais, com o ambito de promover a Ciencia em geral e a Astronomia em especifico no seio dos alunos.
Na altura eu acompanhei todo o processo de nascimento do nucleo, era um entusiasta do ceu nocturno (um fanatico mesmo) e como tal era com muito agrado que me juntava aos professores, entre outros alunos, na fundacao deste grupo.

O grupo conseguia arranjar verbas para a compra de material atraves de varios programas, entre os quais a Ciencia Viva.
No ano seguinte, em Abril de 1999, organizou-se um fim de semana no Alentejo para a observacao do ceu nocturno. Conseguiu-se juntar praticamente todos os alunos da turma, embora a maioria dos alunos nao estivessem muito interessados nas estrelas propriamente ditas, o facto de irem passear dois dias todos juntos ja era um atractivo muito interessante so por si.

Apos o evento escrevi um texto a relatar muito resumidamente o evento, texto esse que foi publicado no jornal do Observatorio Astronomico de Lisboa em Fevereiro de 2000.

Aqui fica o link --->OAL - Edicao Fevereiro 2000

Abaixo fica o texto transcrito para quem nao tiver paciencia para carregar no link.

"As estrelas azuis da constelação terrena(1)

É sabido que os enxames de estrelas são muito bonitos de observar, principalmente se for num céu em que as únicas luzes existentes são as das estrelas, como por exemplo um céu alentejano.

Eu tive essa oportunidade e penso que a aproveitei. É disso mesmo que vos venho falar, das minhas noites no Alentejo que, ao todo (não muitas infelizmente) foram duas consecutivas (8/9 e 9/10 de Abril do ano passado). Imaginem só a quantidade de estrelas observáveis naquelas duas noites! Mas antes disso queria fazer uma pequena chamada de atenção a algumas pessoas que ao olharem para um céu destes dizem logo que seria impensável saber o número de estrelas observáveis a olho nu: "devem estar aqui milhares e milhares de estrelas...", o que é errado pois de certeza que não passam dos dois ou três milhares. Isto deve-se ao facto de a partir do hemisfério norte estarmos a olhar "para fora" da Via Láctea. Se observarmos do hemisfério sul poderemos verificar que aí o céu é muito mais rico, pois estamos, neste caso, a olhar na direcção do centro da Galáxia. Ainda aqui, não nos apercebemos da verdadeira extensão da nossa Galáxia já que devido a gases e poeiras que se encontram no plano galáctico muita da radiação estelar não chega até nós.

É importante também dizer que se não fosse o núcleo de Astronomia da minha escola (NIAC - Núcleo de Investigação em Astronomia da Cidadela) mais o seu telescópio, não teria ido e, mesmo se fosse, nunca iria observar o que observei com o telescópio. O nosso telescópio é um Konuscope reflector de 200 mm e com ele já se pode observar um número razoável de objectos (todo o catálogo Messier, muitos NGC(2), IC(3), etc.) e com boa definição! É, sem dúvida, uma grande companhia para as longas noites de observação. Nestas duas noites apostou-se mais na observação de enxames globulares. Os enxames de estrelas podem classificar-se em abertos ou galácticos, o que significa que são constituídos por centenas de estrelas jovens, sendo por isso objectos de uma densidade relativamente baixa e existindo principalmente nos braços da Galáxia, e fechados ou globulares, que contêm centenas de milhares de estrelas, de uma maneira geral mais velhas, sendo por isso muito mais compactos que os abertos. Estes enxames situam-se na periferia da nossa Galáxia, numa zona chamada o halo galáctico, que envolve o núcleo, bulbo e braços da Via Láctea e se estende muito para além destes. Todos os enxames estelares que podemos observar com os pequenos telescópios amadores pertencem à nossa Galáxia.

Observámos pois, como vos disse já, enxames globulares que são difíceis de observar com uns binóculos, não passando de uma pequeníssima mancha difusa, enquanto que os enxames abertos são facilmente observáveis, podendo-se até distinguir com definição muitas estrelas. Este seria o primeiro passo, depois talvez se passasse à observação de outros objectos celestes mas, infelizmente, isso não aconteceu pois a grande beleza deste tipo de enxames só nos deixou abrir os olhos para eles, e a única forma de parar era observá-los a todos e, duas noites, observando com calma, não chegariam para isso. Então ficámos por aqui mesmo. As observações e as fotografias das constelações foram feitas na Tapada da Serra, a 10 km de Arronches (Arronches fica aproximadamente a 30km de Portalegre), com um céu lindíssimo. Orientámo-nos por apontamentos que tirei de um programa de computador (SkyMap Pro 5), pela carta celeste desdobrável da "Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas", e também pelo livro de bolso "Collins-Pocket Guide-Stars & Planets" da colecção Collins Gemm. Ao todo observámos 22 objectos celestes nas duas noites consecutivas. Não foi muito difícil encontrar o que se queria pois utilizavam-se como ponto de referência as estrelas mais brilhantes que estavam próximas do que se procurava. A única dificuldade, que se ultrapassou com a prática, foi a da imagem nos aparecer invertida, tal e qual como num microscópio, o que é normal neste tipo de telescópios. Na primeira noite acabámos as observações por volta das 04h00min e na segunda noite às 03h30min. Utilizaram-se as lentes oculares de 25 mm, de 9 mm e por vezes a Barlow 2x. Alguns dos objectos observados foram M3, M4, M5, M12, M13, M57 (nebulosa anelar na constelação da Lira), entre muitos outros. Fizémos também fotografias de constelações que iríamos expôr na Semana da Ciência da Escola a decorrer entre 19 e 23 de Abril. E assim foi..

(1) ver Página do Leitor dos números anteriores.
(2) New General Catalogue, Dreyer 1888. Contém cerca de 7840 nebulosas.
(3) Index Catalogues, Dreyer 1895, 1908.

Miguel Morais
Escola Secundária da Cidadela, Cascais"

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