quarta-feira, 26 de maio de 2010

Trafego

Eu sou da opiniao de que devemos fazer do tempo inutil tempo util. La vamos nos naquela manha (mais uma) chuvosa, pela estrada fora, em direccao ao trabalho e parece que os carros se multiplicaram tal e qual formigas estericas a volta do seu ninho sentindo as gotas de agua a cairem como bombas e elas sem saberem bem o que fazer.
Lado a lado com os outros coitados no para-arranca, 5 minutos parado e 1 minuto a andar. Observo mulheres a maquilharem-se usando o retrovisor, homens a tirar macacos do nariz e no geral tanto eles como elas a comerem a sanduiche que nao tiverem tempo para ingerir no pequeno-almoco, outros a lerem o jornal ou entao apenas inertes e observando, grupo esse onde eu me incluo.
Durante estas minhas observacoes nao me limitei apenas a aferir que tipo de coisas as pessoas faziam nos seus carros nestas horas mortas de espera. Houve uma coisa que me chamou a atencao, o padrao de circulacao que existe nas filas de transito. Ja repararam que se voces estiverem na fila do meio vao ter a ideia de que a da esquerda anda mais rapida? E logo quando conseguem passar para a fila da esquerda esta para logo de seguida, nao dando assim para cobrir grande distancia. Mas o pior de tudo e que quando olhamos para a direita vemos a fila do meio a comecar a andar e nos parados e arrependidos na fila da esquerda.

Isto sempre me intrigou e sempre que me encontrava sozinho e preso numa fila de transito pensava nisso (sim, porque depois de sair do transito nunca mais me lembrava do assunto).

Depois de muito pensar cheguei a uma conclusao teorica, vale o que vale, mas eu desde entao tenho-a usado nas minhas jornadas pelo transito fora.

As filas comportam-se como movimentos oscilatorios em 1 dimensao. Traduzindo, conseguem imaginar uma minhoca a deslocar-se? Se repararem vao observar partes do seu corpo a serem comprimidas enquanto que outras partes alargam-se.

E porque que as filas se comportam de tal forma? Para andarmos com o nosso carro temos que esperar que o carro da frente ande primeiro e por sua vez o carro de tras tem que esperar que nos andemos. Quando o carro da frente para, nos paramos de seguida e o carro de tras a seguir a nos. Isto cria um movimento oscilatorio.

Bom, definido que esta o movimento das filas vamos entao encontrar a resposta para o facto de nunca andarmos na fila mais rapida. As filas movem-se no seu movimento oscilatorio de uma forma independente, como tal tanto podem movimentar-se ao mesmo tempo como em tempos diferentes (elas tambem terao periodos T diferentes, periodos esses que tambem variam no tempo).
Observando um carro da fila ao lado como referencia vamos reparar que no final chegamos praticamente ao mesmo tempo. Quando esse carro percorre uma distancia X enquanto a sua fila se desloca e a nossa esta parada, em determinado ponto essa fila vai estar parada e nos vamo-nos deslocar uma distancia equivalente a X (existem aqui algumas variantes, se percorrer uma distancia 2X passo de uma distancia X atras para uma distancia X a frente, as distancias percorridas normalmente nao sao as mesmas, mas acabam por ser equivalentes no final). Assim reparamos que, usando algum carro como referencia, chegamos ao fim praticamente ao mesmo tempo. Mas porque que entao temos a ideia contraria?

Essa ideia contraria advem do facto dos movimentos oscilatorios nos darem uma ilusao. Eu no inicio disse que estavamos 5 minutos parados e 1 minuto a andar, vamos tomar como exemplo esses valores. Se estivermos envolvidos nesse movimento, isto e, se for a nossa fila a movimentar-se demoramos exactamente 1 minuto na nossa deslocacao ate pararmos. Mas se pelo contrario estivermos parados a observar na fila parada a outra fila a deslocar-se vamos de facto observar que a fila se desloca durante mais tempo, embora cada carro apenas se desloque 1 minuto, a fila vai demorar mais tempo nesse movimento visto que e um movimento oscilatorio e portanto existe um retardamento na transmissao da informacao. O carro que vai a frente ao fim de 1 minuto para, mas ainda demora um pouco ate os carros seguintes pararem tambem. Com isso temos a ilusao que nunca nos deslocamos tanto como a fila do lado.

Conclusao? A melhor forma na minha opiniao para uma Auto Estrada com 3 vias sera ficar na fila da esquerda e nao sair de la. A fila da direita sera constantemente interrompida pela entrada de novos carros na circulacao. A fila do meio, embora em menor grau, tambem e afectada nao so pelos carros que vem da esquerda para sair de circulacao como aqueles que vem da direita a procura de maior fluidez.
Se, na fila da esquerda, estando parados observamos a fila do meio a deslocar-se nao vale a pena ficarmos nervosos. Calmamente mantemos a nossa posicao e mais tarde ou mais cedo vamos prosseguir a marcha e apanhar a fila do meio.
A forma mais rapida (e tambem mais perigosa) e andar sempre a deslocar para a fila que esta em movimento, de preferencia sempre no inicio dessa deslocacao. Nao aconselho.

Toda esta teoria e valida obviamente quando situacoes de excepcao nao estao presentes como por exemplo acidentes, avarias, etc. Nesse caso convem mesmo mudar de fila porque de facto a outra fila esta a ter uma maior deslocacao, nao e uma ilusao.
Bom senso portanto.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Saudosismo - Parte 2

Em 1998, tinha eu 14 anos, foi criado o NIAC - Nucleo de Investigacao em Astronomia da Cidadela. Era um grupo criado por dois professores (Rui Farinha e Leonor Cabral) que lecionavam na Escola Secundaria da Cidadela em Cascais, com o ambito de promover a Ciencia em geral e a Astronomia em especifico no seio dos alunos.
Na altura eu acompanhei todo o processo de nascimento do nucleo, era um entusiasta do ceu nocturno (um fanatico mesmo) e como tal era com muito agrado que me juntava aos professores, entre outros alunos, na fundacao deste grupo.

O grupo conseguia arranjar verbas para a compra de material atraves de varios programas, entre os quais a Ciencia Viva.
No ano seguinte, em Abril de 1999, organizou-se um fim de semana no Alentejo para a observacao do ceu nocturno. Conseguiu-se juntar praticamente todos os alunos da turma, embora a maioria dos alunos nao estivessem muito interessados nas estrelas propriamente ditas, o facto de irem passear dois dias todos juntos ja era um atractivo muito interessante so por si.

Apos o evento escrevi um texto a relatar muito resumidamente o evento, texto esse que foi publicado no jornal do Observatorio Astronomico de Lisboa em Fevereiro de 2000.

Aqui fica o link --->OAL - Edicao Fevereiro 2000

Abaixo fica o texto transcrito para quem nao tiver paciencia para carregar no link.

"As estrelas azuis da constelação terrena(1)

É sabido que os enxames de estrelas são muito bonitos de observar, principalmente se for num céu em que as únicas luzes existentes são as das estrelas, como por exemplo um céu alentejano.

Eu tive essa oportunidade e penso que a aproveitei. É disso mesmo que vos venho falar, das minhas noites no Alentejo que, ao todo (não muitas infelizmente) foram duas consecutivas (8/9 e 9/10 de Abril do ano passado). Imaginem só a quantidade de estrelas observáveis naquelas duas noites! Mas antes disso queria fazer uma pequena chamada de atenção a algumas pessoas que ao olharem para um céu destes dizem logo que seria impensável saber o número de estrelas observáveis a olho nu: "devem estar aqui milhares e milhares de estrelas...", o que é errado pois de certeza que não passam dos dois ou três milhares. Isto deve-se ao facto de a partir do hemisfério norte estarmos a olhar "para fora" da Via Láctea. Se observarmos do hemisfério sul poderemos verificar que aí o céu é muito mais rico, pois estamos, neste caso, a olhar na direcção do centro da Galáxia. Ainda aqui, não nos apercebemos da verdadeira extensão da nossa Galáxia já que devido a gases e poeiras que se encontram no plano galáctico muita da radiação estelar não chega até nós.

É importante também dizer que se não fosse o núcleo de Astronomia da minha escola (NIAC - Núcleo de Investigação em Astronomia da Cidadela) mais o seu telescópio, não teria ido e, mesmo se fosse, nunca iria observar o que observei com o telescópio. O nosso telescópio é um Konuscope reflector de 200 mm e com ele já se pode observar um número razoável de objectos (todo o catálogo Messier, muitos NGC(2), IC(3), etc.) e com boa definição! É, sem dúvida, uma grande companhia para as longas noites de observação. Nestas duas noites apostou-se mais na observação de enxames globulares. Os enxames de estrelas podem classificar-se em abertos ou galácticos, o que significa que são constituídos por centenas de estrelas jovens, sendo por isso objectos de uma densidade relativamente baixa e existindo principalmente nos braços da Galáxia, e fechados ou globulares, que contêm centenas de milhares de estrelas, de uma maneira geral mais velhas, sendo por isso muito mais compactos que os abertos. Estes enxames situam-se na periferia da nossa Galáxia, numa zona chamada o halo galáctico, que envolve o núcleo, bulbo e braços da Via Láctea e se estende muito para além destes. Todos os enxames estelares que podemos observar com os pequenos telescópios amadores pertencem à nossa Galáxia.

Observámos pois, como vos disse já, enxames globulares que são difíceis de observar com uns binóculos, não passando de uma pequeníssima mancha difusa, enquanto que os enxames abertos são facilmente observáveis, podendo-se até distinguir com definição muitas estrelas. Este seria o primeiro passo, depois talvez se passasse à observação de outros objectos celestes mas, infelizmente, isso não aconteceu pois a grande beleza deste tipo de enxames só nos deixou abrir os olhos para eles, e a única forma de parar era observá-los a todos e, duas noites, observando com calma, não chegariam para isso. Então ficámos por aqui mesmo. As observações e as fotografias das constelações foram feitas na Tapada da Serra, a 10 km de Arronches (Arronches fica aproximadamente a 30km de Portalegre), com um céu lindíssimo. Orientámo-nos por apontamentos que tirei de um programa de computador (SkyMap Pro 5), pela carta celeste desdobrável da "Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas", e também pelo livro de bolso "Collins-Pocket Guide-Stars & Planets" da colecção Collins Gemm. Ao todo observámos 22 objectos celestes nas duas noites consecutivas. Não foi muito difícil encontrar o que se queria pois utilizavam-se como ponto de referência as estrelas mais brilhantes que estavam próximas do que se procurava. A única dificuldade, que se ultrapassou com a prática, foi a da imagem nos aparecer invertida, tal e qual como num microscópio, o que é normal neste tipo de telescópios. Na primeira noite acabámos as observações por volta das 04h00min e na segunda noite às 03h30min. Utilizaram-se as lentes oculares de 25 mm, de 9 mm e por vezes a Barlow 2x. Alguns dos objectos observados foram M3, M4, M5, M12, M13, M57 (nebulosa anelar na constelação da Lira), entre muitos outros. Fizémos também fotografias de constelações que iríamos expôr na Semana da Ciência da Escola a decorrer entre 19 e 23 de Abril. E assim foi..

(1) ver Página do Leitor dos números anteriores.
(2) New General Catalogue, Dreyer 1888. Contém cerca de 7840 nebulosas.
(3) Index Catalogues, Dreyer 1895, 1908.

Miguel Morais
Escola Secundária da Cidadela, Cascais"

Saudosismo - Parte 1

...de uma infancia que ja nao volta.

De afectos inocentes que eram estruturados pela genuinidade.
De sonhos que constantemente me varriam o pensamento.
Da descoberta do mundo.
Da emocao de viver as coisas pela primeira vez.
Da esperanca de um dia vir a ser Astronauta.
De ficar na rua ate tarde a jogar futebol.
De permanecer horas a fio pensando que era o Super Mario e fantasiando com todo aquele mundo de cogumelos, castelos e dragoes.
De chorar pelo Benfica e ver o Magnusson a marcar golos.
De ser elogiado constantemente pelo que fazia apenas pelo facto de ainda ser uma crianca.
De ser o centro das atencoes no mundo dos adultos.
De receber muitos presentes e nao oferecer nenhum.
De ouvir dizer que um dia iria perceber.
De ter namoradas mas elas nao saberem que o eram.
De nao poder beber cafe mas sim garotos.
De jogar ao bate-pe e dar os primeiros beijos nas noites quentes das ferias de verao.

De tempos que cada vez mais ficam na lonjura da memoria...